20 de out de 2009

Vender férias pode não ser um bom negócio


Nada mais atrativo do que vender os dias de descanso para pagar dívidas. Mas cuidado: a saúde financeira é tão importante quanto o bem-estar físico
Parece incoerente querer se desfazer daquilo que todos os profissionais passam o ano inteiro desejando. Vender ou não vender as férias. É esse o impasse de muitos trabalhadores, mas que deixa de ser um dilema quando o assunto é saúde ou dinheiro. O estresse pode transformar a venda em algo perigoso e a necessidade de pagar as dívidas deixa a ideia atrativa. Os perfis de funcionários que acabam abrindo mão do descanso são os mais variados e, segundo especialistas, a legislação brasileira pode não ser adequada em alguns pontos diante dessa diversidade.

A venda de um terço das férias é o máximo permitido pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Ou seja, o trabalhador é proibido (1)de vender mais do que 10 dias se tiver 30 de férias. Para alguns, como a presidente da Isma-BR (International Stress Management Association), Ana Maria Rossi, o ideal seria não vender o descanso. “Férias não é objeto para ser comercializado, é um direito que existe pelo desgaste natural. Vender significa continuar com as mesmas demandas e pressões”, defende. (ouça entrevista com a especialista)

Por outro lado, o benefício financeiro é inegável: o salário proporcional correspondente ao período vendido mais um terço do valor garantido por lei. O advogado trabalhista Heráclito Zanoni é favorável ao fato de a legislação dar pelo menos a opção de venda ao trabalhador, uma vez que já garante os outros dois terços de descanso. Tanto para ele quanto para a presidente da Isma, de nada adianta o profissional tirar férias, mas ficar desesperado porque precisava do dinheiro da venda.

O substituto
Além do fator financeiro, existe um receio em sair e deixar outra pessoa assumir o posto e desempenhá-lo melhor ou atrapalhar todo o trabalho que já foi feito. Foi esse o motivo que fez Patrícia Cintra vender suas férias de 2007 na escola preparatória onde é atendente. “Como a empresa não tinha como deslocar alguém de dentro, eu não queria uma pessoa de fora bagunçando todo o trabalho a que me dediquei”, explica a brasiliense de 27 anos, que ressaltou o ganho financeiro como um outro incentivo.

Após ficar quatro anos sem férias por ter se demitido de empregos anteriores antes do período que lhe daria direito ao benefício, Patrícia sentiu que a venda não valeu a pena. “O cansaço prejudica o trabalho, eu ficava dispersa. Eu vi que não compensa depois que viajei e virei outra pessoa, fiquei totalmente renovada”, lembra. Esses problemas acabam sendo somatizados e, antes que isso aconteça, é preciso, segundo Ana Maria, avaliar o estado emocional de cada um para tomar a melhor decisão.

Isso porque há casos em que a venda das férias não faz mal algum. Quando a pessoa está bem resolvida, por exemplo, ela pode até ser beneficiada ao manter o ritmo de produção. O risco aqui é que, para os trabalhadores, não é confortável reconhecer seu próprio nível de estresse ou abalo. Muitas vezes, ele até sabe que vai atingir seu limite, mas pagar as dívidas é mais importante. Nesses casos, os sintomas são claros: desleixo, baixa produtividade e qualidade, atrito com os colegas, intolerância, passividade.

Esses sinais são bem perceptíveis quando se trata de um bom funcionário. Dessa forma, uma mediação por parte do chefe imediato é fundamental quando o empregado não perceber o problema. Cabe a esse supervisor tomar providências para que não aconteça a venda de férias. E se o fator financeiro for determinante, que pelo menos seja vendido o mínimo possível. O líder negligente acaba pagando mais, já que também é atingido pela queda na produção, faltas e acidentes de trabalho.

Prejuízo do patrão
Segundo o advogado trabalhista Heráclito Zanoni, a venda total do período de férias é muito comum, apesar de ilegal. Achando que está resolvendo um problema, o empregador, na verdade, pode ter um prejuízo financeiro caso o funcionário recorra à Justiça. Considerando um trabalhador que ganhe R$ 2.000 e venda os 30 dias, o chefe poderá ter que indenizá-lo em R$ 26.600.

Fonte: Correio Braziliense, 18 de outubro de 2009. Na base de dados do site www.endividado.com.br.

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